Sempre tento mapear os meus sentimentos. Raríssimas vezes não soube como traduzi-los, ainda que através de olhos, de lábios, silêncio, águas...

03
Abr 09



    Dizem que é carnaval, mas eu não acredito. Acreditaria se estivesse me arrumando para dançar no clube. Desenrolando os meus sapatos dourados, de um solado tão fino que dava para sentir cada pedrinha da minha rua descalça. A banda do Zelinho tocando “Carnaval é loucura”, hino carnavalesco de sua autoria. Minha mãe sentada, observando a minha dança singela e verdadeira.
    Acho que perdi a loucura por carnaval, mas, também já perdi a loucura por tanta coisa. Conheci outras modalidades. Inclusive, a de ser uma pessoa sem passado. Por opção. Fui retirando a sua importância num jogo que só eu sabia jogar. Cada pessoa que morria, fazia enterrar junto com elas as suas lembranças.
    Foi assim que enterrei minha infância, a sete milhões de palmos da terra e achei ter descoberto a maneira mais indolor de se viver. Quando dei por mim, estava totalmente sem memórias, com dificuldade para me lembrar de coisas simples, como onde havia deixado meus óculos ou o molho de chaves.
    A memória me armou uma falseta e só havia uma saída: ir ao meu encalço palmilhar cada rastro num resgate salva-vidas. Assim nasceram esses contos e crônicas, como o restaurar de uma pintura.

 

Stella Tavares

 

publicado por STELLA TAVARES às 22:16

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