Sempre tento mapear os meus sentimentos. Raríssimas vezes não soube como traduzi-los, ainda que através de olhos, de lábios, silêncio, águas...

28
Mai 09
Quero as rédeas da vida em minhas mãos e não dentro de pequenos frascos, dormir à custa do peso de meus próprios olhos. Para ser mais verdadeira, tudo o que mais quero é dormir com Deus, receita infalível que aprendi na mais tenra infância e ensino todas as noites às minhas crianças. Que o Senhor me inclua, ainda que não mereça. Não quero mais sentimentos anestesiados; olhar que denuncia freios e amarras. Quero galopar no dorso da vida. Ter os sentimentos adestrados como filhos bem criados. Quero de volta, a coragem, o levantar sozinha. Apenas um ser vivo e forte feito cedro.
publicado por STELLA TAVARES às 13:41

27
Mai 09

Se me esvaísse em sangue esta noite, minhas veias sorririam aliviadas. Secariam feitas rio em tempo de estiagem e ainda ocorreria um silêncio ensurdecedor em todo o mundo. Também sentir-me-ia aliviada, emitindo um som agudo. Daqueles que só acontecem quando dormem nossas crianças. Um som que vibrasse e deixasse por segundos o meu corpo em forma de z. Ou, quem sabe, criar um hieróglifo que, nem em duzentos anos de estudo, seria decifrado. E, se o fosse, seria algo de tão profundo, que seria traduzido em todos os idiomas e ensinado nas escolas. Ainda não consegui dizer o meu nome, é que o nome que eu tenho não se parece comigo. Queria lhe falar sobre coisas comuns, passar-lhe uma receita de mousse e, se tivesse mais intimidade, pedir-lhe um raio de sol. Mas eu não quero daqueles pequenos que iluminam as janelas dos asilos. Quero um bem grande, para iluminar o que sou, por dentro e por fora. (Extraído do livro “O Adestrador de Sentimentos” de Stella Tavares Publicado em 2007)

publicado por STELLA TAVARES às 00:06

25
Mai 09



    O ano era de 1929. A noite parecia mais escura do que de costume. Maria Ordones ouvia, no enorme rádio de válvulas, um programa de músicas. Na sala escura, só as luzes que escapavam das entranhas do aparelho iluminavam o que estava próximo.
    Seu pai morrera há sete dias e ela chorava muito. Um choro entrecortado como o programa que ouvia, pelos comerciais de Aurisedina, Antisardina e o sabonete líquido Aristolino.
    Doía-lhe o peito. Estava acostumada com a dor, mas nunca sentira uma tão intensa como aquela.
    Crescera sem mãe e o pai era a sua vida. A linha divisória que fazia com que fosse respeitada e tratada diferentemente de uma agregada.
    Seu pai vivia, ma maioria das vezes, fora da fazenda, tangendo a boiada e ela, apesar das enormes e ternas asas do pai, se obrigou a afiar a língua feito lâmina. Arma branca, usada em legítima defesa.
    Só se desarmava e se permitia ser criança, quando via, através das amplas janelas coloniais, o pai voltando. Uma cena heróica, imponente, como uma enorme tela do Dia do Fico.
    E agora, lá estava ela. Sozinha. Sem o descalçar de botas ou o dependurar de chapéu atrás da porta.
    Solidário à sua dor, aquela enorme caixa começou a tocar o dobrado  que seu pai mais gostava.
    Maria Ordones  ouviu o som de mãos que acompanhavam ritmadas o som da música. Tateou na mesa a esperança de sentir aquelas mãos hábeis e felizes, como se ele nunca houvera partido.

(Extraído do livro “O Adestrador de Sentimentos” de Stella Tavares  publicado em 2007)

publicado por STELLA TAVARES às 21:52

24
Mai 09
O céu sempre me pareceu mais claro por aquelas bandas. Curiosamente, quando a chuva se aproximava, torna-se de chumbo denso, juízo final, noite sem lua e sem promessa do raiar de um novo dia. Havia muita alegria e também muito medo: de ciganos, comunistas, partida de mãe, gente autoritária que anestesia a alma da gente e de tarados. E, quando finalmente chovia, todos os temores se agigantavam. Havia a maior de todas as fobias: João Sapo, um homenzinho rechonchudo de pouco mais de um metro de altura, que capinava lotes vagos, refazia cercas, apanhava e guardava lenhas e outras tarefas para as quais era contratado. Carregava sempre dois embornais e, como a imagem de Santo Onofre, as alças cruzavam ao peito e, sobre os ombros carregava foice e enxada. Terminada a empreita, ia-se embora com seus passos curtos enquanto eu, entrincheirada, esperava que ele dobrasse a esquina quando, aliviada, agradecia a Deus pelo final daquele dia. (Extraído do livro "O Adestrador de Sentimentos de Stella Tavares publicado em 2007)
publicado por STELLA TAVARES às 15:18

21
Mai 09

Cética, como sempre fui nunca poderia imaginar-me na sala de um adestrador de sentimentos. Estamos, há horas, esperando por ele. Na sala enorme de uma velha fazenda, mães amamentam, homens conversam e um senhor bem velhinho saboreia, de cócoras, o seu cigarro de palha. Nunca consegui ficar assim feito ele. O que mais me causa admiração é a paciência chinesa com que todos esperam, enquanto eu quase entro em ebulição. Sempre pensei que, se mudássemos para o campo, nunca mais sentiria stress. O que eu não imaginava era que um dia sentisse falta da poluição sonora. Sinto-me surda, ante tanto silêncio. De dois em dois minutos, confiro a lentidão dos ponteiros do meu relógio de pulso. A espera infinita é quebrada pelo ranger da velha porta se abrindo. O imenso portal emoldura o adestrador. Ele tem os cabelos brancos, desalinhados, os olhos profundamente azuis, e uma pele que, percebe-se fora clara um dia, resultado do sol escaldante daquele bendito lugar. Minutos depois, ele olha para um rapaz de camisa azul que fumava em pé na porta e faz sinal para que o acompanhe. Num ímpeto, atravessei a sala e disse a ele que aquele rapaz havia chegado depois de mim. Ele me sorriu e disse que não atendia por ordem de chegada. Decepcionada, senti meu rosto tremer: - Como? Nunca ouvi falar em tal coisa... Como se não me ouvisse, o rapaz entrou e fechou a porta. A mulher que amamentava disse calmamente: - Não é por ordem de chegada. Seu Gumercindo é quem escolhe as pessoas que serão atendidas primeiro. Depende da necessidade de cada uma. - Quem é esse homem, Deus? Ignorando a minha ironia, ela respondeu: - Depois das cinco horas, ele não atende mais. - O último que saiu ficou uma hora e quarenta minutos. Desse jeito ninguém será atendido mais hoje. De que planeta é esse homem? Ele não gosta de ganhar dinheiro? - Dinheiro? Seu Gumercindo não cobra! Ela tentou me explicar o que o adestrador fazia, mas disse que eu só entenderia, quando entrasse naquela sala. Entrar? Era tudo o que eu queria! Para minha surpresa, não se passaram cinco minutos e o rapaz de camisa azul cruzou a sala. Aproveitei a porta entreaberta e me antecipei: - Seu Gumercindo, estou esperando há horas. Preciso ser atendida ainda hoje. - Volte amanhã, minha filha. Dos sete que estão aguardando, só vou atender dois. Nem sei como atravessei a sala. Liguei a caminhonete e fui embora, na velocidade de um raio. Enquanto um lado meu se exasperava, o outro dizia mansamente que deveria voltar no outro dia. “Por que saí da capital?” “o que vim fazer neste fim de mundo?” sou um bicho urbano, só sobrevivo no asfalto. Chegando a casa, lavei o rosto e tomei um café quente. Meu marido entrou com as botas enlameadas e uma expressão feliz. Tentei colocá-lo em sintonia com meus sentimentos, enquanto contava o acontecido. Ele sorriu, olhou-me com olhos de pai e disse: - Esquece esse homem. É crendice desse povo. Se fosse um adestrador de gatos, cachorros, eu levaria nossos animais até ele, mas adestrar sentimentos... Meneou a cabeça e se encaminhou para o pomar. Tomei um longo banho e, mais calma, decidi que voltaria no outro dia. Ainda que fosse para desmascará-lo. Durante duas semanas não consegui ser atendida. Passei a levar lanches, a conhecer as pessoas pelo nome,trocar experiências. Pude perceber como era linda aquela fazenda e os seus azulejos portugueses. Numa manhã, andava pelo pomar, quando uma criança veio a meu encontro, dizendo que havia chegado a minha vez. Experimentei uma sensação nova. Atravessei sem pressa a sala. Seu Gumercindo me recebeu com um sorriso: - Agora está bem melhor! Nos próximos encontros, trataremos de outras necessidades que possam aparecer. - Do que o Senhor está falando? - O sentimento que regia a sua vida era a ansiedade. Queria que o mundo seguisse seu relógio interior que pulsava aflito. Acredita que poderia ser feliz aqui, com tanta urgência? - Em nenhum outro, muito menos neste. - Quanto tempo mais esperaria para falar-me? - O que fosse preciso... - Fico feliz por ter conseguido tão rápido Tive vontade de beijar-lhe as mãos, mas não o fiz. Agradeci-lhe somente e voltei para casa serenamente. Stella Tavares .

publicado por STELLA TAVARES às 14:42

19
Mai 09

"Quando eu morrer não façam harpas dos meus nervos"

Deixem-nos presos ao que restou de lírico no corpo mudo. Cada respiração soe como uma nota oitavada prova de que meu corpo ardia. Não arrematem os meus desejos ou façam souvenires de minhas lembranças. Sobretudo você, José, porque são suas. Dormirão em mim como um poema.

 

(Extraído do livro "O Adestrador de Sentimentos" de Stella Tavares Publicado em 2007)

publicado por STELLA TAVARES às 23:34

18
Mai 09

Palavras sempre funcionam como um passaporte que me conduz a lugares que nunca fui. São amortecedores, evitam impactos e atritos. Apaixono-me por elas e não necessariamente pelos seus significados. A palavra que mais me encanta é MOVIMENTO. Encanta-me pelo som e também pelo significado. Dá uma sensação de renovação, de aglomeração, de bons resultados. Quando se faz um movimento em prol de alguma causa normalmente obtém-se bom resultado. Lembra-me também um passo de dança, a resposta da água quando se atira pedrinhas no lago. Acabei de carimbar o meu passaporte e a palavra movimento já me conduziu a todas essas imagens. Quando crio um personagem as palavras se multiplicam, salpicam, mesclam quase como um mosaico. São palavras do personagem e não minhas. São eles que me conduzem, eles próprios desenvolvem suas histórias, seus desfechos. Em alguns trechos até encontro minhas digitais pelo texto, afinal fui eu quem escreveu, mas várias vezes já fui surpreendida por eles. Assim como Júlia, a personagem principal de “No convés do tempo” muitas vezes nos misturamos, nos transfundimos, mas ela sempre vence nossas semelhanças e apresenta-me suas peculiaridades. Enquanto escrevia No convés do tempo, andei em companhia de Júlia por todos os caminhos, visitei sua casa, sua infância, sua cidade, permaneci ao seu lado até quando ela entrou em vida vegetativa. Acompanhei-a vida a dentro e ao mesmo tempo permaneci junto ao seu leito, aguardando ansiosa por algum MOVIMENTO

publicado por STELLA TAVARES às 21:21

15
Mai 09
Minha mãe chegou da rua com uma pequena caixa, toda escrita em japonês. Impossível descobrir o que era. Aos poucos, foi tirando da caixa. Era um despertador japonês. Tocava uma música que mais parecia um sorriso de gueixa. Ficamos encantadas. Meu pai estava fora, a trabalho. Fomos para cama bem cedo. Dormimos no mesmo quarto. Os irmãos maiores trouxeram seus colchões e, meu outro irmão e eu dormimos na cama grande. Estávamos extasiados. Tínhamos em casa um objeto que fora fabricado do outro lado do mundo. Depois de vencermos a ansiedade, dormimos. Quando acordamos, o sol estava alto. Minha mãe achou melhor trocá-lo por outro, menos encantador, mas que despertasse. Pedimos a ela que não o devolvesse. Bastaria enxergá-lo de outra forma, como uma caixinha de música que marca horas, mas não a convencemos. Resoluta, ela voltou à relojoaria e o trocou por um outro que, de tão barulhento, passava as noites dentro do guarda-roupa, para abafar o som ensurdecedor de cada segundo. Mais uma vez minha mãe estava certa. Se tivéssemos transformado o despertador japonês em caixinha de música, para sempre sentiríamos falta de um rodopiar de bailarina.
publicado por STELLA TAVARES às 13:51

14
Mai 09
Durante todos os dias da minha infância, levamos comida para duas pessoas necessitadas: um músico e uma velha prostituta. Lembro-me que tinham ciúmes um do outro. Quando chegávamos à casa da velha senhora de pernas arqueadas, batíamos na janela, feita de uma madeira tão resistente, que fazia doer nossos franzinos dedos. A partir daí, ouvíamos um arrastar de chinelos em chão de terra batida, pesados, difíceis como a travessia de um pântano. Minutos depois, ouvíamos o ranger da velha janela que se abria. Em uma das mãos trazia uma lamparina e, na outra, os pratos da noite anterior. Na volta, passávamos pela casa do músico e era bem mais divertido, Sempre podíamos contar com o sopro sonoro de quem tocava na banda de música e um forte cheiro de madeira e serragem. Fazia pequenos consertos em móveis e também mesinhas, cadeirinhas e prateleiras envernizadas para crianças. A maioria das pessoas que sabiam da doação reprovava. Diziam que alimentávamos a um músico desocupado. Nunca nos preocupamos com isso. Convivíamos em perfeita harmônica com nossas cigarras. . Da velha senhora, os mais antigos diziam ter sido ela uma das mais lindas mulheres de seu tempo. Imaginavam como seriam os homens que a tinham amado. Quando estava para morrer, apareceu em sua casa uma suposta sobrinha, cheia de bolsas e bolsos levando consigo toda a prataria e baixelas. Ninguém disse nada, nem quando saiu o centenário relógio de parede. Todos tinham a mesma sensação de que estava indo embora um tesouro de pirata. Não ajudou à própria dona. Ninguém seria feliz com ele. Dias depois ela morreu e foi enterrada vestindo tão somente, uma camisola de saco alvejado. As morenas, inchadas e arqueadas pernas à mostra. O caixão que lhe arrumaram era roxo, com fitas brancas que tentavam, inutilmente, esconder –lhe a fragilidade. Quando baixou à sepultura, ele se partiu. Fiquei dias e dias com o estalido seco do romper das ripas em meus ouvidos. Até hoje, se quiser posso ouvi-lo, mas eu não quero e nunca mais vou ouvir aquele estampido seco e grave como o seu final de vida. Quanto ao músico, teve um fim de vida parecido com a sua música, já nos tínhamos mudado para outra cidade e soubemos que estava estranhamente feliz em meio a lençóis limpos, a casa limpa e aberta ao sol que iluminava todos os cômodos. Debaixo de seu travesseiro, uma carta que meu pai lhe enviara, com algum valor dentro, onde meu pai agradecia a ele pela amizade e ressaltava a extrema importância de sua presença em nossas vidas.
publicado por STELLA TAVARES às 01:14

13
Mai 09
Tenho experimentado muitas formas de desague. Mulher que sou cheia de dádivas e querências, abro comportas para que nossos rios se misturem. Água com água, meus rios não sabem desaguar em outras águas. É noite alta e o mundo também desagua lá fora. Uma intensa chuva encharca as plantas na janela. Impossível imaginar que em algum outro ponto desse mundo haja noite com estrelas e lua. Ouço o som do granizo contra a vidraça, enquanto o mundo e eu desaguamos em um só dilúvio.
publicado por STELLA TAVARES às 02:40

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