Sempre tento mapear os meus sentimentos. Raríssimas vezes não soube como traduzi-los, ainda que através de olhos, de lábios, silêncio, águas...

06
Abr 09

 

                     Juracy tinha um marido que mais parecia um pai zeloso e extremado. Fazia todas as compras da casa, até vestidos e calçados era ele quem trazia.

                        Ela saía de casa apenas para ir à igreja, quando precisava ir ao dentista, médicos ou para esporádicas visitas a doentes ou motivo de luto.

                        O casal não teve filhos, mas, se os tivesse, o único trabalho dela seria o de trazê-los ao mundo. Todo o resto, certamente, correria por conta de Osvaldo, o zeloso companheiro.

                        Grande parte de suas amigas a invejavam, quando diziam que ela tinha vida de rainha.

                        Agora, lá estava Juracy, na capela, velando o corpo do esposo. Acompanhou o cortejo, jogou pétalas de rosa com uma incompreensível calma, sem qualquer sinal de desamparo ou de desespero.

                        Na volta para casa, as amigas se juntaram a ela:

                        - Estamos decidindo quem dormirá em sua casa; eu iria se o Joaquim não estivesse acamado...

                        - Também não posso, porque estou com visitas... São as primas do orlando que chegaram de São Paulo.

                        - Se você quiser, mando a Carminha. Ela leva as tarefas de casa e amanhã vai direto para a escola.

                        Até que a viúva serenamente interrompe:

                        - Agradeço muito pela preocupação, mas eu não quero companhia. Nesse momento, prefiro ficar sozinha. Melhoras para o Joaquim.

                        Juracy se encaminha decidida para casa, quase feliz.

                        - Amanhã, passo lá para ver como passou a noite – grita uma delas.

                        Juracy acena com a mão, sem olhar para trás, como se não ouvisse.

                        Atônitas, as mulheres acompanham o seu caminhar.

                        Chegando a casa, Juracy tomou um longo banho, trocou-se, penteou-se e serviu-se de um pedaço de bolo de chocolate com um copo de refresco. Lembrou: “Osvaldo nunca foi dado a esses prazeres e torcia o nariz, quando eu me permitia.”.

                        Agora ela estava sozinha, única, tendo a própria cabeça como guia. Siamesa, depois de uma intensa cirurgia de separação, nunca mais enxergaria a vida através das retinas do marido.

                        Abriu uma enorme mala, onde colocou todos os pertences de Osvaldo, que seriam doados no dia seguinte.

                        Tivesse pensado melhor, teria também doado as córneas e todos os órgãos que pudessem ser transplantados.

                        A seguir, trocou de lugar todos os móveis, substituiu roupas de cama. Aquela sensação de liberdade suplantava qualquer nostalgia ou sofrimento.

                        Agora, ela seria a autora de sua própria vida. Não aceitaria intromissões, nem do destino! “Ele que venha meter o bedelho!” – pensou.

                        Quando muito, Deus lhe guiaria os passos, mas Ele podia, é o precursor do livre arbítrio.

                        Exaurida, deitou-se em diagonal, com os olhos fixos na janela entreaberta à espera de um renovado dia.            

publicado por STELLA TAVARES às 00:07

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