Sempre tento mapear os meus sentimentos. Raríssimas vezes não soube como traduzi-los, ainda que através de olhos, de lábios, silêncio, águas...

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Mai 09


        

        Cresci ouvindo dizer, num tom sempre abaixo do normal, que Dona Cecília sofria de mal do peito.
    Ostentava olheiras que alternavam entre o verde escuro e o roxo anilado e, nas subidas, parava duas ou três vezes para retomar o fôlego. Suas filhas nem namoravam, por medo das escolhas equivocadas e de provocar desgosto para a mãe doente.
   O marido fora avisado, ao se casar, do mal que a acometia, mas, por amor, quis compartilhar com ela o seu resto de vida.
   Não foram poucas as pessoas que avisaram ao seu pretendente sobre o mau negócio, porém, ignorou e, curiosamente, contra as expectativas, conseguiu ter ela duas filhas e um filho temporão, apesar dos três abortos que tiraram o sono da família, nos primeiros anos do casamento.
    Vinte anos passados, Vicente, o esposo, parecia realizado e agradecido a Deus pela escolha praticada.
                      Em 1979, ao contrário do que se esperava, veio ele a falecer.     Descobriu-se com isso que ele sofria do coração “no último furo” como se dizia por aquelas bandas. Ninguém prestava atenção nele, aparentemente tão forte! Por amor, fundiu o seu coração com o dela, órgão depositário de seu nobre sentimento.
      Depois de sua morte do devotado esposo ela resolveu mudar-se para o triângulo mineiro e lá, estranhamente, encontrou a saúde. Sumiram as olheiras e os declives das ruas não representavam obstáculo para suas longas caminhadas.
       Soube, através de amigos em comum, que as moças não se casaram, mas que nunca se sentiram infelizes, junto à sua realizada mãe e o padrasto. 

publicado por STELLA TAVARES às 21:09

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