Sempre tento mapear os meus sentimentos. Raríssimas vezes não soube como traduzi-los, ainda que através de olhos, de lábios, silêncio, águas...

14
Mai 09
Durante todos os dias da minha infância, levamos comida para duas pessoas necessitadas: um músico e uma velha prostituta. Lembro-me que tinham ciúmes um do outro. Quando chegávamos à casa da velha senhora de pernas arqueadas, batíamos na janela, feita de uma madeira tão resistente, que fazia doer nossos franzinos dedos. A partir daí, ouvíamos um arrastar de chinelos em chão de terra batida, pesados, difíceis como a travessia de um pântano. Minutos depois, ouvíamos o ranger da velha janela que se abria. Em uma das mãos trazia uma lamparina e, na outra, os pratos da noite anterior. Na volta, passávamos pela casa do músico e era bem mais divertido, Sempre podíamos contar com o sopro sonoro de quem tocava na banda de música e um forte cheiro de madeira e serragem. Fazia pequenos consertos em móveis e também mesinhas, cadeirinhas e prateleiras envernizadas para crianças. A maioria das pessoas que sabiam da doação reprovava. Diziam que alimentávamos a um músico desocupado. Nunca nos preocupamos com isso. Convivíamos em perfeita harmônica com nossas cigarras. . Da velha senhora, os mais antigos diziam ter sido ela uma das mais lindas mulheres de seu tempo. Imaginavam como seriam os homens que a tinham amado. Quando estava para morrer, apareceu em sua casa uma suposta sobrinha, cheia de bolsas e bolsos levando consigo toda a prataria e baixelas. Ninguém disse nada, nem quando saiu o centenário relógio de parede. Todos tinham a mesma sensação de que estava indo embora um tesouro de pirata. Não ajudou à própria dona. Ninguém seria feliz com ele. Dias depois ela morreu e foi enterrada vestindo tão somente, uma camisola de saco alvejado. As morenas, inchadas e arqueadas pernas à mostra. O caixão que lhe arrumaram era roxo, com fitas brancas que tentavam, inutilmente, esconder –lhe a fragilidade. Quando baixou à sepultura, ele se partiu. Fiquei dias e dias com o estalido seco do romper das ripas em meus ouvidos. Até hoje, se quiser posso ouvi-lo, mas eu não quero e nunca mais vou ouvir aquele estampido seco e grave como o seu final de vida. Quanto ao músico, teve um fim de vida parecido com a sua música, já nos tínhamos mudado para outra cidade e soubemos que estava estranhamente feliz em meio a lençóis limpos, a casa limpa e aberta ao sol que iluminava todos os cômodos. Debaixo de seu travesseiro, uma carta que meu pai lhe enviara, com algum valor dentro, onde meu pai agradecia a ele pela amizade e ressaltava a extrema importância de sua presença em nossas vidas.
publicado por STELLA TAVARES às 01:14

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