Sempre tento mapear os meus sentimentos. Raríssimas vezes não soube como traduzi-los, ainda que através de olhos, de lábios, silêncio, águas...

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Mai 09

Cética, como sempre fui nunca poderia imaginar-me na sala de um adestrador de sentimentos. Estamos, há horas, esperando por ele. Na sala enorme de uma velha fazenda, mães amamentam, homens conversam e um senhor bem velhinho saboreia, de cócoras, o seu cigarro de palha. Nunca consegui ficar assim feito ele. O que mais me causa admiração é a paciência chinesa com que todos esperam, enquanto eu quase entro em ebulição. Sempre pensei que, se mudássemos para o campo, nunca mais sentiria stress. O que eu não imaginava era que um dia sentisse falta da poluição sonora. Sinto-me surda, ante tanto silêncio. De dois em dois minutos, confiro a lentidão dos ponteiros do meu relógio de pulso. A espera infinita é quebrada pelo ranger da velha porta se abrindo. O imenso portal emoldura o adestrador. Ele tem os cabelos brancos, desalinhados, os olhos profundamente azuis, e uma pele que, percebe-se fora clara um dia, resultado do sol escaldante daquele bendito lugar. Minutos depois, ele olha para um rapaz de camisa azul que fumava em pé na porta e faz sinal para que o acompanhe. Num ímpeto, atravessei a sala e disse a ele que aquele rapaz havia chegado depois de mim. Ele me sorriu e disse que não atendia por ordem de chegada. Decepcionada, senti meu rosto tremer: - Como? Nunca ouvi falar em tal coisa... Como se não me ouvisse, o rapaz entrou e fechou a porta. A mulher que amamentava disse calmamente: - Não é por ordem de chegada. Seu Gumercindo é quem escolhe as pessoas que serão atendidas primeiro. Depende da necessidade de cada uma. - Quem é esse homem, Deus? Ignorando a minha ironia, ela respondeu: - Depois das cinco horas, ele não atende mais. - O último que saiu ficou uma hora e quarenta minutos. Desse jeito ninguém será atendido mais hoje. De que planeta é esse homem? Ele não gosta de ganhar dinheiro? - Dinheiro? Seu Gumercindo não cobra! Ela tentou me explicar o que o adestrador fazia, mas disse que eu só entenderia, quando entrasse naquela sala. Entrar? Era tudo o que eu queria! Para minha surpresa, não se passaram cinco minutos e o rapaz de camisa azul cruzou a sala. Aproveitei a porta entreaberta e me antecipei: - Seu Gumercindo, estou esperando há horas. Preciso ser atendida ainda hoje. - Volte amanhã, minha filha. Dos sete que estão aguardando, só vou atender dois. Nem sei como atravessei a sala. Liguei a caminhonete e fui embora, na velocidade de um raio. Enquanto um lado meu se exasperava, o outro dizia mansamente que deveria voltar no outro dia. “Por que saí da capital?” “o que vim fazer neste fim de mundo?” sou um bicho urbano, só sobrevivo no asfalto. Chegando a casa, lavei o rosto e tomei um café quente. Meu marido entrou com as botas enlameadas e uma expressão feliz. Tentei colocá-lo em sintonia com meus sentimentos, enquanto contava o acontecido. Ele sorriu, olhou-me com olhos de pai e disse: - Esquece esse homem. É crendice desse povo. Se fosse um adestrador de gatos, cachorros, eu levaria nossos animais até ele, mas adestrar sentimentos... Meneou a cabeça e se encaminhou para o pomar. Tomei um longo banho e, mais calma, decidi que voltaria no outro dia. Ainda que fosse para desmascará-lo. Durante duas semanas não consegui ser atendida. Passei a levar lanches, a conhecer as pessoas pelo nome,trocar experiências. Pude perceber como era linda aquela fazenda e os seus azulejos portugueses. Numa manhã, andava pelo pomar, quando uma criança veio a meu encontro, dizendo que havia chegado a minha vez. Experimentei uma sensação nova. Atravessei sem pressa a sala. Seu Gumercindo me recebeu com um sorriso: - Agora está bem melhor! Nos próximos encontros, trataremos de outras necessidades que possam aparecer. - Do que o Senhor está falando? - O sentimento que regia a sua vida era a ansiedade. Queria que o mundo seguisse seu relógio interior que pulsava aflito. Acredita que poderia ser feliz aqui, com tanta urgência? - Em nenhum outro, muito menos neste. - Quanto tempo mais esperaria para falar-me? - O que fosse preciso... - Fico feliz por ter conseguido tão rápido Tive vontade de beijar-lhe as mãos, mas não o fiz. Agradeci-lhe somente e voltei para casa serenamente. Stella Tavares .

publicado por STELLA TAVARES às 14:42

aqui estou com muito prazer! Na minha família, ironicamente, tenho uma prima canadiana que se chama Stella e duas portuguesas que saõ mãe e filha que se chamam Estela. Este adestrador de sentimentos também adestra as estrelas e o desejo de chegar perto delas?
jose miguel de oliveira a 22 de Maio de 2009 às 05:01

Fantástica história... Aprendizagens que perdemos a cada minuto, ao não pararmos para olhar o mundo e as circunstâncias com olhos de ver...
DaiSantos a 2 de Julho de 2009 às 21:29

Adorei. Isso tudo reflecte o problema que as pessoas têm em deixar que o relógio tome conta da sua vida. Lembro-me que um dia estava na paragem do autocarro e alguém perguntou-me se sabia o horário, e eu respondi que não, e essa pessoa comentou, que dava jeito. Eu respondi-lhe que sabendo o horário ou não, naquele momento eu iria esperar exactamente o mesmo tempo, a questão é que, sabendo o horário, simplesmente poderia diminuir a minha ansiedade na espera.

A surdez dos citadinos vem na incapacidade ver as coisas que existem em frequências mais baixas, de som, imagem e mesmo da vida. Isso porque para estas pessoas, o sentindo de estar vivo está relacionado com o exterior e não com o seu próprio interior.

A sociedade que nos domina, nos educa para acreditarmos em coisas específicas, por isso é que o dito adestrador de sentimentos, para muitos, não tinha sentido. Na verdade, o homem é um animal, e posso dizer mais, facilmente manipulado. No que toca aos sentimentos o homem ainda tem medo de estar com eles porque a sociedade o ensinou isso como sinal de fraqueza.

Gostei. :)
O homem e a mente a 19 de Agosto de 2009 às 08:50

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