Sempre tento mapear os meus sentimentos. Raríssimas vezes não soube como traduzi-los, ainda que através de olhos, de lábios, silêncio, águas...

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Mai 09



    O ano era de 1929. A noite parecia mais escura do que de costume. Maria Ordones ouvia, no enorme rádio de válvulas, um programa de músicas. Na sala escura, só as luzes que escapavam das entranhas do aparelho iluminavam o que estava próximo.
    Seu pai morrera há sete dias e ela chorava muito. Um choro entrecortado como o programa que ouvia, pelos comerciais de Aurisedina, Antisardina e o sabonete líquido Aristolino.
    Doía-lhe o peito. Estava acostumada com a dor, mas nunca sentira uma tão intensa como aquela.
    Crescera sem mãe e o pai era a sua vida. A linha divisória que fazia com que fosse respeitada e tratada diferentemente de uma agregada.
    Seu pai vivia, ma maioria das vezes, fora da fazenda, tangendo a boiada e ela, apesar das enormes e ternas asas do pai, se obrigou a afiar a língua feito lâmina. Arma branca, usada em legítima defesa.
    Só se desarmava e se permitia ser criança, quando via, através das amplas janelas coloniais, o pai voltando. Uma cena heróica, imponente, como uma enorme tela do Dia do Fico.
    E agora, lá estava ela. Sozinha. Sem o descalçar de botas ou o dependurar de chapéu atrás da porta.
    Solidário à sua dor, aquela enorme caixa começou a tocar o dobrado  que seu pai mais gostava.
    Maria Ordones  ouviu o som de mãos que acompanhavam ritmadas o som da música. Tateou na mesa a esperança de sentir aquelas mãos hábeis e felizes, como se ele nunca houvera partido.

(Extraído do livro “O Adestrador de Sentimentos” de Stella Tavares  publicado em 2007)

publicado por STELLA TAVARES às 21:52

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