Sempre tento mapear os meus sentimentos. Raríssimas vezes não soube como traduzi-los, ainda que através de olhos, de lábios, silêncio, águas...

15
Mai 09
Minha mãe chegou da rua com uma pequena caixa, toda escrita em japonês. Impossível descobrir o que era. Aos poucos, foi tirando da caixa. Era um despertador japonês. Tocava uma música que mais parecia um sorriso de gueixa. Ficamos encantadas. Meu pai estava fora, a trabalho. Fomos para cama bem cedo. Dormimos no mesmo quarto. Os irmãos maiores trouxeram seus colchões e, meu outro irmão e eu dormimos na cama grande. Estávamos extasiados. Tínhamos em casa um objeto que fora fabricado do outro lado do mundo. Depois de vencermos a ansiedade, dormimos. Quando acordamos, o sol estava alto. Minha mãe achou melhor trocá-lo por outro, menos encantador, mas que despertasse. Pedimos a ela que não o devolvesse. Bastaria enxergá-lo de outra forma, como uma caixinha de música que marca horas, mas não a convencemos. Resoluta, ela voltou à relojoaria e o trocou por um outro que, de tão barulhento, passava as noites dentro do guarda-roupa, para abafar o som ensurdecedor de cada segundo. Mais uma vez minha mãe estava certa. Se tivéssemos transformado o despertador japonês em caixinha de música, para sempre sentiríamos falta de um rodopiar de bailarina.
publicado por STELLA TAVARES às 13:51

14
Mai 09
Durante todos os dias da minha infância, levamos comida para duas pessoas necessitadas: um músico e uma velha prostituta. Lembro-me que tinham ciúmes um do outro. Quando chegávamos à casa da velha senhora de pernas arqueadas, batíamos na janela, feita de uma madeira tão resistente, que fazia doer nossos franzinos dedos. A partir daí, ouvíamos um arrastar de chinelos em chão de terra batida, pesados, difíceis como a travessia de um pântano. Minutos depois, ouvíamos o ranger da velha janela que se abria. Em uma das mãos trazia uma lamparina e, na outra, os pratos da noite anterior. Na volta, passávamos pela casa do músico e era bem mais divertido, Sempre podíamos contar com o sopro sonoro de quem tocava na banda de música e um forte cheiro de madeira e serragem. Fazia pequenos consertos em móveis e também mesinhas, cadeirinhas e prateleiras envernizadas para crianças. A maioria das pessoas que sabiam da doação reprovava. Diziam que alimentávamos a um músico desocupado. Nunca nos preocupamos com isso. Convivíamos em perfeita harmônica com nossas cigarras. . Da velha senhora, os mais antigos diziam ter sido ela uma das mais lindas mulheres de seu tempo. Imaginavam como seriam os homens que a tinham amado. Quando estava para morrer, apareceu em sua casa uma suposta sobrinha, cheia de bolsas e bolsos levando consigo toda a prataria e baixelas. Ninguém disse nada, nem quando saiu o centenário relógio de parede. Todos tinham a mesma sensação de que estava indo embora um tesouro de pirata. Não ajudou à própria dona. Ninguém seria feliz com ele. Dias depois ela morreu e foi enterrada vestindo tão somente, uma camisola de saco alvejado. As morenas, inchadas e arqueadas pernas à mostra. O caixão que lhe arrumaram era roxo, com fitas brancas que tentavam, inutilmente, esconder –lhe a fragilidade. Quando baixou à sepultura, ele se partiu. Fiquei dias e dias com o estalido seco do romper das ripas em meus ouvidos. Até hoje, se quiser posso ouvi-lo, mas eu não quero e nunca mais vou ouvir aquele estampido seco e grave como o seu final de vida. Quanto ao músico, teve um fim de vida parecido com a sua música, já nos tínhamos mudado para outra cidade e soubemos que estava estranhamente feliz em meio a lençóis limpos, a casa limpa e aberta ao sol que iluminava todos os cômodos. Debaixo de seu travesseiro, uma carta que meu pai lhe enviara, com algum valor dentro, onde meu pai agradecia a ele pela amizade e ressaltava a extrema importância de sua presença em nossas vidas.
publicado por STELLA TAVARES às 01:14

13
Mai 09
Tenho experimentado muitas formas de desague. Mulher que sou cheia de dádivas e querências, abro comportas para que nossos rios se misturem. Água com água, meus rios não sabem desaguar em outras águas. É noite alta e o mundo também desagua lá fora. Uma intensa chuva encharca as plantas na janela. Impossível imaginar que em algum outro ponto desse mundo haja noite com estrelas e lua. Ouço o som do granizo contra a vidraça, enquanto o mundo e eu desaguamos em um só dilúvio.
publicado por STELLA TAVARES às 02:40

11
Mai 09


 Senta, Stella e te despes frente à folha em branco que te desafia. Há dias que você se esquiva, por pudor. Medo de ferir os olhos de quem lê, afinal, o que é escrever senão esse mergulho profundo?
 Desata os nós, desabotoa a camisa de força que te aprisiona a alma. Só assim, possuirás a pureza de criança que sonha com chicletes de sabor que não termina.
Sente a proximidade de algo que transforma vidas.Ainda que não saibas de onde vem.
 Urge que reúnas todos os destroços para criar um mosaico mais leve e colorido.

    

 

(Extraído do livro “O Adestrador de Sentimentos” de Stella Tavares Publicado em 2007)
 

publicado por STELLA TAVARES às 17:25

  “Aprende agora, para não ter que aprender na escola da vida.” Era o que dizia minha mãe aos seus seis filhos. Mas, não estávamos interessados em aprender. Achávamos que a vida seria para sempre esse casulo quentinho e que a loura da propaganda da propaganda da gillete jamais envelheceria.
Bendito tempo aquele e eu nem sabia. Assim não vale!
  Bendito colo de mãe que surgia do nada após o choro! Hoje, tenho o bendito tempo pelo avesso, através de meus filhos que também acreditam ser para sempre. Que, enquanto arderem, eu estarei à beira de seus berços.
  Bendita ilusão que rege a vida das crianças!

publicado por STELLA TAVARES às 17:23

07
Mai 09


        

        Cresci ouvindo dizer, num tom sempre abaixo do normal, que Dona Cecília sofria de mal do peito.
    Ostentava olheiras que alternavam entre o verde escuro e o roxo anilado e, nas subidas, parava duas ou três vezes para retomar o fôlego. Suas filhas nem namoravam, por medo das escolhas equivocadas e de provocar desgosto para a mãe doente.
   O marido fora avisado, ao se casar, do mal que a acometia, mas, por amor, quis compartilhar com ela o seu resto de vida.
   Não foram poucas as pessoas que avisaram ao seu pretendente sobre o mau negócio, porém, ignorou e, curiosamente, contra as expectativas, conseguiu ter ela duas filhas e um filho temporão, apesar dos três abortos que tiraram o sono da família, nos primeiros anos do casamento.
    Vinte anos passados, Vicente, o esposo, parecia realizado e agradecido a Deus pela escolha praticada.
                      Em 1979, ao contrário do que se esperava, veio ele a falecer.     Descobriu-se com isso que ele sofria do coração “no último furo” como se dizia por aquelas bandas. Ninguém prestava atenção nele, aparentemente tão forte! Por amor, fundiu o seu coração com o dela, órgão depositário de seu nobre sentimento.
      Depois de sua morte do devotado esposo ela resolveu mudar-se para o triângulo mineiro e lá, estranhamente, encontrou a saúde. Sumiram as olheiras e os declives das ruas não representavam obstáculo para suas longas caminhadas.
       Soube, através de amigos em comum, que as moças não se casaram, mas que nunca se sentiram infelizes, junto à sua realizada mãe e o padrasto. 

publicado por STELLA TAVARES às 21:09

05
Mai 09

         Jamais seria capaz de imaginar-me em um lugar como àquele, justo eu, avessa ao uso de qualquer palavrão. Não dizia bunda e nem sovaco, que nem é palavrão, mas sempre achei uma palavra feia.
          Aqui estou  a fazer uma coisa que julgava que só as mulheres excessivamente maquiadas, com os seios saltando do decote seriam capazes de fazer. Estou novamente fugindo das palavras, achava que só as prostitutas seriam capazes de fazer. Será que me transformei em uma a minha própria revelia? Não. Afora as grandes catástrofes nada acontece de um segundo para o outro. É tudo uma questão de construção.
         Como aquela sala que nem minha era, mas como um espelho cristalino ora me cegava, ora despia-me a alma. Às vezes penso que a alma da gente é como um pulmão. Vai mudando de cor dependendo dos nossos abusos. Cor de grafite, sinto a cor de minha alma frente àquela sala que denunciava uma rotina, um construir de tijolinhos.
           A poltrona de frente para o sol da manhã, quase posso vê-lo sentado em manhã fria, com uma xícara de chá fumegante e um pratinho de torradas que jamais passariam pelo meu controle de qualidade: Quase saídas de um incêndio! Era como ele gostava.
             Um pouco de poeira na sala que ainda não fora arrumada. São oito horas da manhã e sinto-me estupidamente intrusa.
               O cheiro do café fresco espalha-se pela sala e corredor.
_Você nem tocou no pão de queijo. Coma enquanto está quentinho. É assim que o Alberto gosta. Acho que todo mundo...não é? Riu meio sem graça.
_Volto outra hora com mais tempo. Pego no trabalho daqui a pouco.
_Não sei por que ele demora tanto. Saiu para comprar pão, jornal e até agora... Deve estar de papo com o dono da banca.
            Senti vontade de atravessar feito alfinete, ir para casa, tomar um longo banho de água benta, esbofetear-me frente ao espelho até que o meu rosto fique da cor da minha alma naquele momento: rubra, consumindo-se em chamas ou então tirar-lhe aquele avental maldito, que tanta pureza lhe trazia. Ordenar-lhe que se enfeite, que use água de cheiro, levante os cabelos e coloque uma presilha.
            Descobri naquele momento que o casamento, muitas vezes, abençoa as mulheres, mas aquele homem nada,  nem o renascimento o salvaria.

publicado por STELLA TAVARES às 17:29

30
Abr 09

 

     Nunca foi segredo que minha avó, Maria Ordones, roubara o meu avô, José Henrique para casar-se com ele. Fugiram juntos como se vivessem em nossos tempos.

      Ela era, inconfessavelmente, mais velha e ele, por puro cavalheirismo, assumiu a maior idade. O preço pago pela ousadia foi alto: ela deixou para trás a confortável fazenda, de infindáveis janelas e passou a viver em casa de colonos por diversas fazendas. Meu avô dando aulas a filhas de fazendeiros abastados até  o dia em que o ciúme adentrava a cena e meu avô perdia o emprego e via-se obrigado a por o pé na estrada novamente.

      Maria Ordones sempre amou àquele menino que tanto se esforçava para amadurecer em seus braços. Amadurecimento este que nunca veio, nem com a chegada dos cabelos brancos; os quais ele encobria, incansavelmente, usando infindáveis vidros de Pindorama. Produto que além de colorir os cabelos impregnava os seus  paletós, corredores e, ainda hoje, sentimos sua fragrância em nossas ternas lembranças.

       Ele só  perdeu  a inocência quando sentiu a alma abandonar o corpo da amada, com a mesma facilidade de quando se deixa uma casa  em que se vive por quase cem anos. Não quis vê-la morta, mas também nunca mais enxergou a vida através de sua pueril poesia. Talvez até por isso, a vida o tenha desobrigado logo depois.

 

publicado por STELLA TAVARES às 19:17

 

     Quando descobri que amor não correspondido fazia doer o peito, decidi que nunca mais desejaria a lua. Havia me apaixonado por um menino de nove anos, de nome Miguel como o arcanjo. Encontrávamos ao acaso, mas isso não impediu em que se transformasse no mais oficial dos romances. Nossos pais eram amigos e, quando nos visitavam, nunca abria mão de servir café àquele gentil homem que elegera como sogro.

      Apesar da péssima fisionomista que sou, guardei nas minhas retinas todas as fisionomias: a do pretenso sogro, da sogra que não se enquadrava em estereótipos, do tio que era padrinho de minha irmã e todos a invejávamos por isso. Depois de suas visitas passávamos o dia trocando amabilidades, sua polidez era contagiante. Uma verdadeira lição de ética, respeito e amizade sincera. Por incrível que pareça, só Neném, testemunha mais presente daquele amor de criança, não reconheci; aquela mocinha de cabelos eternamente presos havia dado lugar à mulher, de uma beleza diferente da que conheci.

       O mesmo aconteceu quando abri a porta e me deparei com o adulto que emoldurava o Miguel da minha infância. Nossos olhos eram os mesmos, mas o que eles diziam era diferente. Não importa. São desses momentos que guardamos em essência, em pequeninos frascos revestidos de veludo.

 

publicado por STELLA TAVARES às 19:15

 

   Ele exibia com maestria os seus cinqüenta e poucos anos. Eu sofria porque só tinha sete, mas sentia que o amava. Ele nem enxergava àquela criança esguia que se esfregava excessivamente no banho tentando retirar da pele a morenice.

    Na pequena cidade em que vivíamos ele era um contraponto. Destoava de todos. Parecia um turista. Seus olhos e lentes passeavam pelos habitantes daquela cidade. Tirava fotos dos desfiles de Sete de Setembro e outras festas populares.

      Morava sozinho e tinha um carmaguia vermelho, o único da cidade. Quiçá de toda região. Mudei-me de minha terra e vivia os meus doces anos de adolescência quando, aos dezessete anos tive notícia de sua morte pelo jornal.

       Chorei vários dias por aquele homem que nunca soube da minha existência e muito menos do meu amor.

 

publicado por STELLA TAVARES às 19:14

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