Sempre tento mapear os meus sentimentos. Raríssimas vezes não soube como traduzi-los, ainda que através de olhos, de lábios, silêncio, águas...

30
Abr 09

 

     Nunca foi segredo que minha avó, Maria Ordones, roubara o meu avô, José Henrique para casar-se com ele. Fugiram juntos como se vivessem em nossos tempos.

      Ela era, inconfessavelmente, mais velha e ele, por puro cavalheirismo, assumiu a maior idade. O preço pago pela ousadia foi alto: ela deixou para trás a confortável fazenda, de infindáveis janelas e passou a viver em casa de colonos por diversas fazendas. Meu avô dando aulas a filhas de fazendeiros abastados até  o dia em que o ciúme adentrava a cena e meu avô perdia o emprego e via-se obrigado a por o pé na estrada novamente.

      Maria Ordones sempre amou àquele menino que tanto se esforçava para amadurecer em seus braços. Amadurecimento este que nunca veio, nem com a chegada dos cabelos brancos; os quais ele encobria, incansavelmente, usando infindáveis vidros de Pindorama. Produto que além de colorir os cabelos impregnava os seus  paletós, corredores e, ainda hoje, sentimos sua fragrância em nossas ternas lembranças.

       Ele só  perdeu  a inocência quando sentiu a alma abandonar o corpo da amada, com a mesma facilidade de quando se deixa uma casa  em que se vive por quase cem anos. Não quis vê-la morta, mas também nunca mais enxergou a vida através de sua pueril poesia. Talvez até por isso, a vida o tenha desobrigado logo depois.

 

publicado por STELLA TAVARES às 19:17

 

     Quando descobri que amor não correspondido fazia doer o peito, decidi que nunca mais desejaria a lua. Havia me apaixonado por um menino de nove anos, de nome Miguel como o arcanjo. Encontrávamos ao acaso, mas isso não impediu em que se transformasse no mais oficial dos romances. Nossos pais eram amigos e, quando nos visitavam, nunca abria mão de servir café àquele gentil homem que elegera como sogro.

      Apesar da péssima fisionomista que sou, guardei nas minhas retinas todas as fisionomias: a do pretenso sogro, da sogra que não se enquadrava em estereótipos, do tio que era padrinho de minha irmã e todos a invejávamos por isso. Depois de suas visitas passávamos o dia trocando amabilidades, sua polidez era contagiante. Uma verdadeira lição de ética, respeito e amizade sincera. Por incrível que pareça, só Neném, testemunha mais presente daquele amor de criança, não reconheci; aquela mocinha de cabelos eternamente presos havia dado lugar à mulher, de uma beleza diferente da que conheci.

       O mesmo aconteceu quando abri a porta e me deparei com o adulto que emoldurava o Miguel da minha infância. Nossos olhos eram os mesmos, mas o que eles diziam era diferente. Não importa. São desses momentos que guardamos em essência, em pequeninos frascos revestidos de veludo.

 

publicado por STELLA TAVARES às 19:15

 

   Ele exibia com maestria os seus cinqüenta e poucos anos. Eu sofria porque só tinha sete, mas sentia que o amava. Ele nem enxergava àquela criança esguia que se esfregava excessivamente no banho tentando retirar da pele a morenice.

    Na pequena cidade em que vivíamos ele era um contraponto. Destoava de todos. Parecia um turista. Seus olhos e lentes passeavam pelos habitantes daquela cidade. Tirava fotos dos desfiles de Sete de Setembro e outras festas populares.

      Morava sozinho e tinha um carmaguia vermelho, o único da cidade. Quiçá de toda região. Mudei-me de minha terra e vivia os meus doces anos de adolescência quando, aos dezessete anos tive notícia de sua morte pelo jornal.

       Chorei vários dias por aquele homem que nunca soube da minha existência e muito menos do meu amor.

 

publicado por STELLA TAVARES às 19:14

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